Mandatum novum: Maria e o amor que identifica os discípulos

Mandatum novum do vobis: ut diligatis invicem, sicut dilexi vos.
Jo 13,34
«Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei». Jo 13,34 apresenta o «mandamento novo» como o núcleo da identidade cristã: «A este sinal todos reconhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros» (Jo 13,35). A novidade deste mandamento não é a ideia de que se deve amar, o Antigo Testamento já o mandava (Lv 19,18). A novidade é a medida: «como eu vos amei», o amor de Jesus, que vai até à entrega da vida, torna-se o modelo e o motor do amor cristão. A mariologia encontra neste mandamento o seu lugar específico: Maria é a criatura que mais plenamente viveu este amor «como Jesus amou».
I. A novidade do amor cristão: «Sicut dilexi vos»
O «mandamento novo» de Jo 13,34 não é novo na sua substância, o amor ao próximo é um preceito veterotestamentário (Lv 19,18) que Jesus já tinha citado (Mc 12,31). A novidade está na medida: «como eu vos amei» (kathōs ēgapēsa hymas). Este «como» (kathōs) joânico é determinante: o amor cristão não é apenas um amor humano elevado, é um amor que tem como modelo e como fonte o próprio amor de Jesus.
E o amor de Jesus, tal como João o apresenta, vai até à entrega total: «Não há amor maior do que dar a vida pelos amigos» (Jo 15,13). O «como eu vos amei» de Jo 13,34 remete inevitavelmente para a Cruz: é a Cruz que dá ao mandamento o seu «como» concreto. Amar «como Jesus amou» é estar dispostos a dar a vida pelo outro, não necessariamente de modo espectacular, mas de modo radical: preferir o bem do outro ao próprio bem, mesmo quando isso custa sofrimento.
A teologia do amor cristão distinguiu, desde cedo, o eros (amor de atração, que procura o bem próprio no outro) do agape (amor de dádiva, que procura o bem do outro sem contrapartida). O «mandamento novo» de Jesus é precisamente um mandamento de agape: um amor que não depende da reciprocidade, que não mede o retorno, que não calcula o custo. Este amor é sobrenatural, vai além da capacidade humana natural, e por isso só é possível pela graça: «Dios es amor» (1Jo 4,8) e só pode amar com amor divino quem recebe o Espírito de Deus.
A distinção entre eros e agape, explorada magistralmente por Bento XVI na Deus Caritas Est (2005), mostra que o amor cristão não suprime o eros, purifica-o e eleva-o. Maria, modelo do amor cristão, viveu este amor purificado: o seu amor ao Filho não era apenas maternal (eros materno) mas um amor que incluía a dimensão do serviço, do sacrifício, da entrega total. O Calvário foi o «como eu vos amei» aplicado à sua própria existência: ela amou até ao fim, sem reservas, sem fugas.
II. Maria, modelo do «Mandamento novo»
A tradição mariológica sempre reconheceu em Maria o modelo supremo do amor cristão. Não apenas porque ela amou o Filho com amor materno, este seria um amor compreensível e esperado. Mas porque ela amou na forma que Jesus estabeleceu como modelo: até ao fim, sem reservas, através da dor e do silêncio, mesmo quando o amor parecia derrotado.
A cena da Anunciação mostra o amor de Maria como entrega total: «Faz-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38) é uma fórmula de amor agape, não «faz-se o que eu quero» mas «faz-se o que tu queres». Este amor que coloca o bem de Deus e do mundo acima do próprio bem ou da própria compreensão é a forma mais pura do amor que Jesus mandará aos seus discípulos como «mandamento novo».
A Visitação (Lc 1,39-56) mostra o amor de Maria como acção: «foi às pressas» servir Isabel. O Magnificat que se segue mostra o amor de Maria como louvor e testemunho: o amor que transborda na alegria e na proclamação das maravilhas de Deus. As Bodas de Caná (Jo 2,1-11) mostram o amor de Maria como intercessão: ela que intercede pelos outros sem que lhe peçam, que nota a necessidade antes que ela se manifeste, que resolve o problema discretamente, sem exibicionismo.
O Calvário é o ápice: Maria junto da Cruz não é apenas uma mãe sofredora, é a figura do amor que «permanece» quando todos os outros amores fugiram. O amor que Jesus mandou, «como eu vos amei», tem o seu modelo mais perfeito, depois do próprio Jesus, em Maria junto da Cruz: «e stabat Mater dolorosa iuxta Crucem lacrimosa», e a Mãe dolorosa estava de pé junto da Cruz. De pé, não caída. Presente, não ausente. Amando, não fugindo.
III. «Pelo amor reconhecerão que sois meus discípulos»: Maria e o testemunho da Igreja
Jo 13,35: «A este sinal todos reconhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros». O «sinal» pelo qual a Igreja é identificada não é o poder, não é o saber, não é a organização, é o amor. Esta afirmação tem consequências radicais para a eclesiologia e para a missão da Igreja: o testemunho cristão mais poderoso não é a argumentação intelectual nem a acção social, é a comunidade de amor que vive o «mandamento novo».
Maria, como Mater Ecclesiae, está no coração deste testemunho. O Cenáculo de Actos 1,14, onde «todos perseveravam unanimemente na oração com Maria», é o modelo da comunidade cristã que vive o «mandamento novo»: unida em torno da Mãe, em oração, aguardando o Espírito que tornará possível o amor de que Jesus fala. A Igreja nasceu de uma comunidade que amava, e tinha Maria como figura desse amor.
As ordens religiosas e as comunidades cristãs que se colocaram sob o patrocínio de Maria expressaram, ao longo da história, a intuição de que o amor mariano modela o amor fraterno. A regra de vida de muitas comunidades, das Beguinas medievais às Irmãs da Caridade de Luísa de Marillac, invocava Maria precisamente como modelo do serviço amoroso e da fraternidade cristã. Não por acaso: ela que viveu mais plenamente o «mandamento novo» é o guia mais seguro para quem quer vivê-lo.
A mariologia social, um desenvolvimento contemporâneo que articula a devoção a Maria com o compromisso pela justiça e pelos necessitados, encontra no «mandamento novo» o seu fundamento mais sólido. Maria, que no Magnificat proclamou que Deus «exaltou os humildes e despediu os ricos de mãos vazias» (Lc 1,52-53), é a figura de um amor que não se fecha em si mesmo mas se derrama sobre os que mais precisam. Amar «como Jesus amou» é amar preferencialmente os pobres, os marginalizados, os descartados.
IV. O amor que «permanece»: Maria e a comunhão eterna
1Cor 13,13: «Permanecem a fé, a esperança e a caridade; estas três. Mas a maior delas é a caridade». O amor é a única realidade que «permanece» para além da morte: a fé dar-se-á na visão, a esperança completar-se-á no cumprimento, mas o amor que é Deus, e que os redimidos participam, permanece eternamente. O «mandamento novo» de Jesus não é uma lei provisória para a vida terrena: é a antecipação da lei eterna da vida trinitária.
Maria, que foi assumida em corpo e alma para a glória, vive este amor eterno na sua plenitude. Ela que amou «como Jesus amou», até à Cruz, sem reservas, sem fugas, vive agora na plena comunhão do amor que é a vida trinitária. A sua intercessão não é um acto de poder, é um acto de amor: ela que amou todos os filhos espirituais de Jesus intercede por eles com o amor que aprendeu a viver ao longo da sua vida terrena.
A contemplação de Maria glorificada é, assim, a contemplação do amor cristão na sua plenitude escatológica. Ver Maria na glória é ver o que o «mandamento novo» produz quando levado à sua realização definitiva: uma criatura humana que amou «como Jesus amou» e que, por isso, vive na plenitude do amor que é Deus. Esta visão escatológica não é fuga do presente; é horizonte que dá sentido ao presente: valerá a pena amar «como Jesus amou» porque esse amor conduz a onde Maria já está.
A tradição apofática da teologia cristã, que procura Deus através do amor mais do que através do conceito, encontrou em Maria a sua expressão mais acessível. Não porque Maria não tinha inteligência, mas porque o seu «caminho» para Deus foi supremamente o do amor: um amor que começou com o «fiat» da Anunciação, que cresceu ao longo de décadas de vida oculta, que se apurou no sofrimento do Calvário, e que atingiu a sua plenitude na comunhão eterna com o Filho e o Pai no Espírito.
Maria, que amou «como Jesus amou», até ao fim, sem reservas, é o modelo do «mandamento novo» e o guia da Igreja que quer ser reconhecida pelo amor.
Referências
- Bento XVI, Deus Caritas Est, n. 1-18 (2005).
- Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 63-65 (1964).
- João Paulo II, Redemptoris Mater, n. 45-47 (1987).
- C. Spicq, Agapè dans le Nouveau Testament, vol. III (1959).
- H. U. von Balthasar, Mary for Today (1987).
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