Ego sum via, veritas et vita: Maria e o caminho que conduz ao Pai

Ego sum via et veritas et vita. Nemo venit ad Patrem nisi per me.
Jo 14,6
«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim». Uma das mais célebres afirmações de Jesus no IV Evangelho, esta auto-revelação tripla responde à pergunta de Tomé: «Senhhor, não sabemos para onde vais. Como podemos saber o caminho»? (Jo 14,5). Jesus não se limita a indicar um caminho; ele é o Caminho. Não ensina uma verdade; ele é a Verdade. Não fornece uma receita para a vida; ele é a Vida. A mariologia tem em Jesus-Caminho o seu referente absoluto: Maria, que conduziu ao Filho, conduz ao Pai. Que é modelo do Caminho, não alternativa a ele.
I. «Eu sou o caminho»: a lógica da via encarnada
O «caminho» (hodos) é uma metáfora fundamental na tradição bíblica: «O Senhor abre caminhos no deserto» (Is 43,19), «preparai o caminho do Senhor» (Is 40,3), «eu ensinarei os pecadores os teus caminhos» (Sl 25,8). Em todos estes casos, o «caminho» aponta para a orientação da vida humana em direção a Deus. Em Jo 14,6, Jesus faz uma afirmação sem precedentes: ele não indica o caminho; ele é o Caminho. A direção para Deus não é um conjunto de regras ou de práticas, é uma Pessoa.
Esta afirmação tem implicações enormes para a teologia cristã: a salvação não é um processo de auto-aperfeiçoamento mas uma relação pessoal. Não basta «seguir os mandamentos» no sentido legalista; é preciso «seguir Jesus», vincular-se a ele como discípulo se vincula ao mestre, como membro se vincula ao corpo. A «via» cristã é a via da imitação de Cristo, não a via do cumprimento exterior de uma lei.
A vida religiosa cristã interpretou este «ser o caminho» de Jesus a partir da espiritualidade mariana. S. Luís Maria de Montfort formulou o princípio clássico: «a Jesus por Maria» (ad Jesum per Mariam). Esta fórmula não implica que Maria seja um «desvio» na estrada para Jesus, implica que, historicamente e espiritualmente, o caminho para Jesus passa frequentemente pela sua Mãe. Ela que o gerou, que o apresentou ao mundo, que disse «fazei o que ele vos disser», é a que melhor indica o Caminho.
A analogia arquitectónica é ilustrativa: Maria é como o pórtico de entrada de uma catedral que conduz ao altar onde está o Santíssimo Sacramento. O pórtico não é o destino, é o acesso ao destino. Mas um pórtico bem construído, ornado com imagens que narram a história da salvação, que prepara o visitante para o encontro com o sagrado, cumpre uma função essencial: sem ele, a passagem de fora para dentro seria abrupta, sem preparação, sem a devida reverência. Maria prepara o coração humano para o encontro com o Filho que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
II. «Eu sou a verdade»: Maria e a revelação do rosto de Deus
Jesus como «Verdade» em Jo 14,6 não é a verdade de uma proposição mas a Verdade como Pessoa, a revelação plena e definitiva de quem é Deus. «Quem me viu, viu o Pai» (Jo 14,9). Jesus não apenas «diz» a verdade sobre Deus: ele «é» a verdade sobre Deus. Na sua pessoa, nos seus gestos, nas suas palavras, na sua morte e ressurreição, Deus se revela plenamente. Não há revelação para além de Jesus; há apenas um aprofundamento sempre possível da revelação que ele é.
Maria, que «gerou» a Verdade, participa de modo único na sua revelação. Ela que foi a primeira a contemplar o Rosto do Filho, que o viu no berço de Belém, que o recebeu nos seus braços, que o acompanhou até à Cruz, é a que mais profundamente conheceu a «Verdade encarnada». A sua contemplação não foi apenas exterior: foi interior, progressiva, aprofundada ao longo de décadas de convivência e de meditação.
O título mariano de Sedes Sapientiae, Trono da Sabedoria, exprime esta participação de Maria na Verdade. Ela foi o «trono» onde a Sabedoria eterna se sentou: não apenas no sentido físico (o ventre onde o Verbo habitou), mas no sentido espiritual (o coração onde a Verdade foi contemplada e assimilada mais profundamente do que em qualquer outro ser humano). A Sabedoria que Maria gerou no ventre foi também a Sabedoria que ela gerou no coração.
A tradição dominicana, em particular, desenvolveu uma mariologia do «conhecimento» de Maria que é complementar à mariologia da «graça» franciscana. Tomás de Aquino, embora cuidadoso nas suas afirmações sobre o «saber» de Maria, reconhecia que ela recebeu graças intelectuais extraordinárias, não o conhecimento infuso do modo dos profetas, mas uma penetração contemplativa dos mistérios divinos sem par entre os seres humanos. Esta penetração era o fruto da sua relação única com a Verdade encarnada.
III. «Eu sou a vida»: Maria e a fonte da vida que ela gerou
Jo 14,6: «Eu sou (…) a Vida». Jo 1,4: «Nela estava a Vida». Jo 5,26: «O Pai tem a vida em si mesmo e deu ao Filho também tê-la em si mesmo». A «vida» (zoe) joânica não é a vida biológica (bios), é a vida divina, a vida que vem de Deus e que conduz a Deus, a vida eterna que começa já no presente para quem crê. Jesus tem esta vida «em si mesmo» por dom do Pai, e comunica-a aos que nele crêem.
Maria, que gerou o Filho que «é a Vida», participou de modo único nesta comunicação da vida. A Encarnação é o momento em que a Vida eterna «entrou» na história humana: o Filho eterno assume a mortalidade humana para que os mortais participem da sua imortalidade. Maria é o «ponto de entrada» desta troca de vida: ela, que era mortal, deu ao Filho a sua carne mortal. O Filho que é imortal comunica-lhe, e a todos os seus, a sua vida divina.
A tradição monástica desenvolveu a contemplação de Maria como «fonte de vida» no contexto da lectio divina sobre o Cântico dos Cânticos: a «fonte selada» de Ct 4,12 foi interpretada como Maria, de quem brota a água da vida que é Cristo. O Apocalipse 21,6 coloca nos lábios do Pai a promessa: «Ao que tiver sede, eu darei de graça da fonte da água da vida». Maria, como «canal da graça» (expressão que a teologia moderna prefere à de «fonte», para preservar a unicidade de Jesus como Fonte), participa na distribuição desta água da vida.
A Assunção de Maria em corpo e alma é a confirmação mais visível da sua participação na «Vida» que Jesus é. O corpo que gerou o Filho, o corpo que foi o «tabernáculo» da Vida, não poderia sujeitar-se à corrupção definitiva. A lógica da Encarnação exigia que o corpo de Maria participasse da Vida que ela gerou: não apenas a alma, mas o corpo, porque foi com o corpo que ela concorreu para a Encarnação da Vida.
IV. «Ninguém vai ao Pai senão por mim»: exclusividade de Cristo e papel de Maria
Jo 14,6 termina com uma afirmação de exclusividade: «Ninguém vai ao Pai senão por mim». Esta exclusividade é a afirmação central do Cristianismo: não há outro Mediador, não há outro Caminho, não há outra Verdade, não há outra Vida que conduza ao Pai. Todos os outros «caminhos» religiosos ou filosóficos que levam a Deus, se levam mesmo, fazem-no em virtude da mediação única de Cristo, explícita ou implicitamente, visível ou invisível.
Esta exclusividade de Cristo não anula o papel de Maria, integra-o. A mariologia católica afirmou sempre que Maria é «mediadora» num sentido subordinado e participado, não concorrente com a mediação de Cristo. O Concílio Vaticano II (LG 62) formulou cuidadosamente este princípio: «A função maternal de Maria para com os homens de forma alguma obscurece ou diminui a única mediação de Cristo, mas manifesta o seu poder». Maria não é «outro caminho» para o Pai, é a criatura que mais plenamente percorreu o único Caminho que é Jesus.
A fórmula ad Jesum per Mariam deve ser entendida exactamente neste sentido: não que Maria seja uma via autónoma para Deus, mas que, na história concreta de cada cristão, a veneração de Maria pode ser o meio pelo qual ele se abre ao Filho. Os grandes convertidos da história, Agostinho (através de Mónica, que rezou tanto ao lado da Cruz), Pascal, Claudel, testemunham este facto: o encontro com Maria preparou ou aprofundou o encontro com Cristo. Mas o destino final é sempre o mesmo: o Pai, através do único Caminho que é o Filho.
Maria, que percorreu inteiramente o Caminho que é o Filho e que nos indica «fazei o que ele vos disser», conduz não a si mesma mas ao Pai, através do único Caminho que é Jesus.
Referências
- Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 62 (1964).
- S. Luís Maria de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção, n. 55-89.
- João Paulo II, Redemptoris Mater, n. 38-47 (1987).
- R. Brown, The Gospel According to John, vol. II (1970).
- X. Léon-Dufour, Lecture de l’Évangile selon Jean, vol. III (1993).
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