Manete in dilectione mea: Maria e a morada no amor de christo

Manete in dilectione mea: Maria e a morada no amor de Cristo

Manete in dilectione mea, sicut et ego Patris mei praecepta servavi et maneo in eius dilectione.
Jo 15,9-10

«Permanecei no meu amor, como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor». Jo 15,9-10 coloca o amor como o «lugar» onde o discípulo deve habitar, não um sentimento passageiro, mas uma morada permanente. Jesus estabelece o paralelo com a sua própria relação com o Pai: ele que «permanece no amor do Pai» guardando os seus mandamentos é o modelo do discípulo que «permanece no amor de Cristo» guardando os seus mandamentos. A mariologia encontra aqui o seu centro mais profundo: Maria permaneceu no amor de Cristo de modo mais pleno do que qualquer outro ser humano.

I. «Permanecer no amor»: a estrutura da vida cristã

O verbo menein, «permanecer», é um dos mais característicos do IV Evangelho: aparece 40 vezes, muito mais do que nos outros evangelhos. Em João, «permanecer» não é estaticidade, é a qualidade de uma relação que persiste, que não é perturbada pelas dificuldades externas, que tem um centro de gravidade estável. «Permanece no amor» é a descrição de alguém cuja vida está organizada a partir do amor de Cristo, que retorna sempre a esse centro mesmo quando as circunstâncias o afastam.

A condição do «permanecer no amor» é, segundo Jo 15,10, guardar os mandamentos: «Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor». Esta condição não é legalista, não é a obediência que precede e mereceria o amor. É a obediência que flui do amor e que o aprofunda: quem ama, age segundo a vontade do amado. E agindo segundo essa vontade, a relação de amor aprofunda-se. Os mandamentos são a forma concreta como o amor de Cristo se encarna na vida quotidiana.

A teologia da graça tem aqui um ponto de ancoramento fundamental: «permanecer no amor» não é possível pelas forças humanas, requer a graça habitual, o estado de justificação que os teólogos denominam «graça santificante». Esta graça é precisamente a participação no amor intratrinitário: quando o fiel está em graça, está «dentro» do amor de Deus, «permanece» nele. O pecado mortal é exactamente a saída deste estado, a ruptura do «permanecer».

A distinção entre «amor» como sentimento e «amor» como estado, entre o eros afectivo e o agape ontológico, é crucial para compreender este versículo. João não fala de sentir sempre afecto por Jesus, fala de uma habitação ontológica no seu amor que pode coexistir com a aridez afectiva, a noite da fé, o silêncio de Deus. Maria, que «permaneceu no amor» mesmo no Calvário, quando todos os sentimentos de consolação tinham desaparecido, é o modelo desta distinção.

II. Maria, a que «permaneceu no amor» até ao fim

A história da vida de Maria pode ser lida como a história de um «permanecer no amor» cada vez mais profundo. Cada etapa da sua vida, Anunciação, Visitação, Belém, Nazaré, Caná, ministério público, Calvário, Ressurreição, Pentecostes, é uma nova realização do mesmo «permanecer», em circunstâncias sempre diferentes e sempre mais exigentes.

A Anunciação é o «permanecer» inicial: Maria diz «fiat» e entra no amor de Deus com toda a sua liberdade. Mas este «permanecer» inicial é imediatamente posto à prova: a incompreensão de José (Mt 1,19), a viagem a Belém, o nascimento em condições de pobreza, a fuga para o Egipto. Cada uma destas circunstâncias poderia ter abalado uma fé menos profunda. Maria «permaneceu»: não porque não sofreu, mas porque o centro de gravidade do seu ser era o amor do Filho, não as circunstâncias externas.

A «vida oculta» de Nazaré, trinta anos de silêncio evangélico, é a forma mais radical do «permanecer»: a fidelidade quotidiana, sem gestos heroicos visíveis, sem consagração pública, sem reconhecimento. Maria que fazia o pão, cosia, buscava água no poço, «permanecia no amor» de Cristo com o mesmo fervor da Anunciação. Esta fidelidade quotidiana é o mais difícil de todos os «permanecer», e o mais necessário para a Igreja, maioritariamente feita de vidas «ocultas» sem heroísmo visível.

O Calvário é o ápice: quando o amor parecia derrotado, quando o Filho que era a razão do seu «permanecer» morria na desonra, Maria «permaneceu». Não por força de vontade, mas porque o amor que ela tinha pelo Filho era mais forte do que o escândalo da Cruz. Este «permanecer» de Maria no Calvário é a razão mais profunda da sua maternidade espiritual: ela que «permaneceu» quando todos os outros fugiram pode sustentar os seus filhos espirituais nas suas próprias crises de fé.

III. «Como eu guardei»: o modelo trinitário do amor

Jo 15,10: «como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneci no seu amor». Jesus estabelece um paralelo entre a sua relação com o Pai e a relação dos discípulos com ele: «como eu… assim vós». A vida cristã tem uma estrutura participativa, é uma participação na relação que o Filho tem com o Pai. Amar «como Jesus amou» é ser admitido, pela graça, dentro da dinâmica do amor intratrinitário.

Esta dimensão trinitária da espiritualidade cristã é central para a mariologia. Maria não foi apenas fiel à lei de Deus, foi admitida dentro da dinâmica do amor trinitário de um modo único e irrepetível. A sua relação com o Pai (como filha da Trindade), com o Filho (como Mãe) e com o Espírito Santo (como o «lugar» da sua actuação) é uma participação real na vida das três Pessoas divinas.

S. Luís Maria de Montfort, no Tratado da Verdadeira Devoção, desenvolveu a ideia de que a devoção a Maria é a forma mais perfeita de «permanecer no amor de Cristo»: porque Maria, que está permanentemente «no amor do Filho», acolhe os seus devotos nesse mesmo espaço de amor. Entregar-se a Maria é, nesta lógica, a forma mais segura de «entrar e permanecer» no amor de Cristo. Não porque Maria substitua o Filho, mas porque ela, que está mais profundamente «dentro» desse amor do que qualquer outra criatura, é o guia mais seguro para a morada nesse amor.

A espiritualidade ignaciana, aparentemente muito distante da devoção mariana de Montfort, partilha desta estrutura trinitária do amor. Os Exercícios Espirituais de S. Inácio culminam na «Contemplatio ad Amorem», uma meditação sobre o amor de Deus que leva o exercitante a «permanecer» dentro de um amor que o precede e o envolve. Maria é, nos Exercícios, a que mais perfectamente realizou esta «permanência no amor», e por isso é invocada no início de cada contemplação como modelo e intercessora.

IV. «Para que a minha alegria esteja em vós»: Maria e a alegria do amor

Jo 15,11: «Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa». O «permanecer no amor» não é um fardo, é a fonte da alegria mais profunda. Jesus promete que quem «permanece» no seu amor participará da sua própria alegria, a alegria do Filho no amor do Pai, que é a alegria da vida trinitária.

Maria é, na tradição, a figura da alegria cristã. O Magnificat é um cântico de alegria que brota do «permanecer no amor»: «Alegra-se o meu espírito em Deus, meu Salvador» (Lc 1,47). Esta alegria não é a alegria fácil de quem nunca sofreu, é a alegria profunda de quem sofreu muito e «permaneceu» apesar de tudo. A Maria do Magnificat e a Maria do Calvário são a mesma mulher: e é precisamente porque «permaneceu» no Calvário que o seu Magnificat é credível.

A tradição franciscana, com o seu ênfase na laetitia (alegria) como fruto da vida evangélica, encontrou em Maria o modelo da «alegria perfeita» que brota não das consolações mas do «permanecer no amor». S. Francisco de Assis, que compôs o Cântico das Criaturas como expressão desta alegria contemplativa, tinha em Maria a sua devoção mais profunda: ela que disse «Omnipotens me fecit mirabilia» (Lc 1,49) é o modelo da alegria que vem do reconhecimento das maravilhas de Deus, não das próprias realizações.

A espiritualidade contemporânea, em particular o movimento carismático e os movimentos de evangelização, recuperou a dimensão da alegria como sinal do Espírito Santo e como testemunho cristão. Maria, «cheia de graça» e «cheia do Espírito», é o modelo desta alegria que «transborda» e que atrai: a alegria que não é felicidade superficial mas profundidade de amor. Ela que «permaneceu no amor» de Cristo até ao fim é a garantia de que este amor é real, que esta alegria é possível, que «permanecer» vale a pena.

Maria, que «permaneceu no amor» de Cristo do Fiat ao Calvário e ao Cenáculo, é o modelo e a intercessora para cada discípulo que quer habitar permanentemente no amor do Filho.

Referências

  • S. Luís Maria de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção, n. 55-89.
  • João Paulo II, Redemptoris Mater, n. 17-24 (1987).
  • S. Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, n. 230-237.
  • H. U. von Balthasar, First Glance at Adrienne von Speyr (1981).
  • C. Spicq, Agapè dans le Nouveau Testament, vol. III (1959).

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