Qui vidit me vidit patrem: Maria e a face do Deus visível

Qui vidit me vidit patrem: Maria e a face do Deus visível

Qui vidit me, vidit Patrem.
Jo 14,9

«Quem me viu, viu o Pai». Filipe pede «Mostra-nos o Pai» (Jo 14,8), e Jesus responde com esta frase que resume toda a cristologia joânica: o Filho é a «exegese» do Pai (Jo 1,18), a sua revelação plena e definitiva. Ver Jesus é ver o Pai, não porque as Pessoas divinas se confundam, mas porque o Filho revela o Pai de modo tão completo que ver o Filho equivale a ver o Pai. A mariologia encontra aqui um ponto de reflexão privilegiado: ela que «viu» o Filho mais do que ninguém, nos seus braços, junto da Cruz, no Cenáculo, é a que mais profundamente «viu o Pai» na carne do seu Filho.

I. «Exegese do pai»: a visibilidade de Deus em Jesus

Jo 1,18: «A Deus, ninguém jamais o viu. O Filho único, que está no seio do Pai, ele o deu a conhecer». O verbo grego é exegesato, que deu a nossa palavra «exegese»: o Filho «interpretou», «narrou», «fez conhecer» o Pai. Esta «exegese» não é verbal apenas, é existencial: toda a vida de Jesus, cada gesto, cada palavra, cada silêncio é uma «narrativa» de quem é o Pai. Jesus não «diz coisas sobre o Pai», ele «é» a revelação do Pai.

Teologicamente, esta afirmação implica que o Deus do Cristianismo não é um Deus abstracto, incognoscível, distante, é o Deus que se fez visível em Jesus de Nazaré. Cada episódio da vida de Jesus revela um aspecto do rosto do Pai: a cura dos doentes revela a compaixão do Pai, o perdão dos pecadores revela a misericórdia do Pai, a ressurreição revela o poder do Pai sobre a morte. Ver Jesus nas suas acções é ver o Pai em acção.

Esta visibilidade de Deus em Jesus tem consequências para a espiritualidade cristã: a contemplação do Evangelho não é apenas um exercício de memória histórica, é a via privilegiada para o conhecimento de Deus. Quem lê atentamente os Evangelhos e se deixa tocar pelos gestos e pelas palavras de Jesus, vê o Pai. A lectio divina, a leitura orante das Escrituras, é precisamente este exercício: deixar que a «exegese» do Pai que é Jesus ilumine progressivamente o coração do fiel.

S. Ireneu de Lione, no século II, formulou este princípio com uma concisão admirável: «O Filho é a medida do Pai, e o Pai é a medida do Filho». Nesta circularidade, a única «medida» que temos de Deus é a que Jesus nos dá, e a única «medida» que temos de Jesus é a que o Pai confirma na Ressurreição. Ver Jesus é ver o Pai. Receber o Pai é receber o Filho. Maria, que «viu» o Filho de modo mais íntimo do que qualquer outro ser humano, participou de modo único nesta visibilidade mútua do Pai e do Filho.

II. O «ver» de Maria: contemplação e proximidade

Entre todos os seres humanos, Maria é a que mais «viu» o Filho. Viu-o nos seus braços em Belém. Viu-o crescer em Nazaré durante trinta anos de vida oculta. Viu-o manifestar-se em Caná. Viu-o entrar em Jerusalém. Viu-o na Cruz. E, segundo a tradição, foi a primeira a vê-lo ressuscitado. Este «ver» não é apenas ocular, é contemplativo: é o olhar de amor que penetra para além da superfície e apreende a realidade mais profunda.

Lc 2,19.51: «Maria guardava todas estas coisas e as meditava no seu coração». Este «meditar» (symbalousa, literalmente «reunir, juntar, pôr em relação») é a descrição do modo como Maria «via» o Filho: não de modo fragmentário, mas reunindo os elementos, pondo em relação os acontecimentos, procurando a unidade profunda que os conecta. Este exercício contemplativo é o que os Padres chamaram theoria, visão contemplativa, e que a tradição monástica fez seu como método privilegiado de oração.

A tradição iconográfica cristã expressou esta «visão» de Maria de modo particularmente belo na imagem da Mater Amabilis ou da Nossa Senhora da Humildade: Maria que contempla o Filho nos seus braços com um olhar de amor e de admiração que revela não apenas afecto materno mas deslumbramento espiritual. Ela que «viu» o Filho de modo mais íntimo do que qualquer outro ser humano não ficou «habituada» ao mistério, permaneceu sempre na atitude de quem se maravilha, de quem contempla com renovado assombro o que Deus realizou nela.

Esta capacidade de maravilhamento perante o Filho, que é, ao mesmo tempo, maravilhamento perante o Pai que se revela no Filho, é o que a tradição espiritual procura transmitir através da devoção mariana. Olhar para Maria a olhar para Jesus é aprender a olhar para Jesus. A sua contemplação educa o nosso olhar. O seu amor forma o nosso amor. O seu «ver» orienta o nosso «ver». Ela que viu o Pai no Filho ensina-nos a ver o Pai no Filho.

III. «Há tanto tempo estou convosco»: a paciência do amor paterno e materno

Jo 14,9: «Há tanto tempo estou convosco e não me conheceste, Filipe»? Esta pergunta de Jesus a Filipe tem uma nota de suave tristeza: a proximidade não garantiu o conhecimento. Filipe esteve com Jesus durante todo o seu ministério e ainda não «viu» quem ele era. A proximidade física não é, por si só, suficiente para o conhecimento espiritual.

Esta constatação ilumina a singularidade de Maria: ela não apenas esteve «muito tempo» com Jesus, ela esteve com ele de um modo único, desde antes do nascimento, com um amor materno que orientou todo o seu olhar. A proximidade de Maria não foi apenas física, foi afectiva, espiritual, ontológica: ela amou Jesus como mãe, o que significa que o conheceu «do lado de dentro», com o conhecimento que só o amor próximo proporciona.

O amor materno tem, na tradição teológica, uma profundidade epistémica particular: a mãe «conhece» o filho de um modo que nenhum outro conhecimento alcança. Ela que o formou no seu ventre, que o alimentou com o seu leite, que o viu crescer, conhece-o de um modo que vai além do conceptual. Transposto para a relação de Maria com o Filho de Deus, este «conhecimento materno» aponta para uma intimidade com o mistério de Jesus que excede a de qualquer outro ser humano.

Quando Maria «guardava e meditava» (Lc 2,19), estava a exercer este conhecimento materno sobre o Filho que é o Verbo eterno. Estava a «ver o Pai» no rosto do Filho, não de modo abstracto, mas concreto, quotidiano, doméstico. O Deus invisível tornou-se visível em Jesus. E Jesus tornou-se visível de modo supremo a Maria. Esta «visão» de Maria é o fundamento da sua contemplação, da sua intercessão, da sua maternidade espiritual.

IV. A theotokos e a revelação do rosto de Deus: implicações iconográficas

A controvérsia iconoclasta do século VIII-IX teve uma dimensão mariológica importante. Os defensores das imagens, Germano de Constantinopla, João Damasceno, Teodoro Estúdita, argumentaram que a legitimidade das imagens de Cristo se funda na Encarnação: precisamente porque o Filho de Deus assumiu uma face humana visível, é legítimo representá-lo em imagens. «Quem me viu, viu o Pai» (Jo 14,9) fundamenta não apenas a cristologia mas também a iconologia cristã.

A representação de Maria nas imagens, Theotokos, Hodegetriaaquela que indica o caminho»), Glykophilousaa que beija com ternura»), está directamente ligada a esta lógica: ver a Maria que aponta para o Filho é ver o Filho. Ver o Filho é ver o Pai. A iconografia mariana não é uma concorrência à iconografia cristológica, é a sua extensão: através de Maria que aponta para Jesus, o fiel é conduzido à visão do Pai.

O ícone da Hodegetria, Maria que aponta com a mão direita para o Filho que carrega no braço esquerdo, é a expressão iconográfica mais directa desta lógica. O gesto de Maria não é de apresentação de si mesma: é de indicação do Filho. «Olha para ele», essa é a mensagem do gesto. E o Filho que ela indica é o Filho que «exegeta» o Pai: vê-lo é ver o Pai.

A renovação iconográfica contemporânea, em particular o movimento dos ícones no Ocidente, redescobriu esta profundidade teológica da imagem mariana. O ícone de Maria não é um retrato devocional, é uma janela para o mistério. Contemplá-lo com fé é participar no olhar de Maria sobre o Filho, é partilhar a sua «visão» do Deus que se fez visível, é aproximar-se do Pai que se revela na face do Filho que Maria gerou.

Maria, que viu o Filho de modo mais íntimo do que qualquer outro ser humano, é o guia privilegiado para quem quer «ver o Pai» na face de Jesus, o único Deus visível.

Referências

  • João Damasceno, De Imaginibus, Or. I-III.
  • S. Ireneu de Lião, Adversus Haereses, IV, 6.
  • Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 65 (1964).
  • P. Evdokimov, L’Art de l’Icône: Théologie de la Beauté (1970).
  • G. Gharib, Le Icone Mariane (1987).

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