Transfiguratus est ante eos: a transfiguração do Senhor e Maria contemplativa do Filho glorioso

Transfiguratus est ante eos: a transfiguração do Senhor e Maria contemplativa do Filho glorioso
Et transfiguratus est ante eos: et resplenduit facies eius sicut sol, vestimenta autem eius facta sunt alba sicut nix. Et ecce apparuerunt illis Moses et Elias cum eo loquentes.
Mt 17,1-3

A Transfiguração (Mt 17,1-9) é o cume narrativo do Evangelho de Mateus antes da Paixão: a revelação da identidade divina de Jesus num grupo restrito de discípulos, no alto de um monte, entre as figuras de Moisés e Elias. A cena tem uma estrutura litúrgica deliberada: a subida ao monte (v.1), a transformação luminosa (v.2), a aparição dos patriarcas e profetas (v.3), a voz do Pai que repete a fórmula do Baptismo (v.5), a prostração dos discípulos (v.6), e a descida com a instrução de silêncio (vv.7-9). Cada elemento corresponde a uma cena bíblica anterior: o monte de Moisés, a luz do Êxodo, a voz do Sinai.

A Transfiguração acontece «seis dias depois» (Mt 17,1) da confissão de Pedro (Mt 16,13-20) e da primeira predição da Paixão (Mt 16,21-23). A justaposição não é acidental: Jesus anunciou a Paixão e mostrou a glória, o mesmo evento visto de dois ângulos. A Cruz e a Transfiguração são os dois rostos do mesmo mistério: a kenosis que leva à doxa, o caminho da Cruz que termina na ressurreição cujo antecipação é a luz do Tabor. Pedro que resistiu à Paixão é o mesmo que viu a glória, e a experiência do Tabor deveria ter dado sentido à experiência do Calvário.

I. «Resplenduit facies eius sicut sol»: a glória revelada

«O seu rosto resplendeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a neve» (Mt 17,2), a luminosidade da Transfiguração é a linguagem da doxa bíblica: a glória (כָּבוֹד / δόξα) de Deus que Ezequiel viu como «fogo e brilho» (Ez 1,26-28), que Moisés não pôde ver de frente (Ex 33,20-23) e que resplendeu no rosto de Moisés depois de estar com Deus (Ex 34,29-35). Jesus não reflete a glória de Deus como Moisés, ele é a fonte da glória: «o seu rosto resplendeceu» não por contacto com o Santo mas porque ele é o Santo.

A aparição de Moisés e Elias, os dois grandes mediadores do Antigo Testamento, um que representa a Torah e outro os Profetas, coloca Jesus na continuidade da revelação bíblica mas também na sua consumação. Eles «falam com ele» (Mt 17,3) sobre o que Lucas explicitará como «o seu êxodo que estava para se cumprir em Jerusalém» (Lc 9,31): a Paixão é o tema da conversa no Tabor. A glória da Transfiguração não existe apesar da Cruz mas por causa dela, a doxa que os discípulos veem é a doxa do que vai morrer e ressuscitar.

A voz do Pai, «Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ouvi-o» (Mt 17,5), replica e reforça a voz do Baptismo (Mt 3,17), acrescentando o imperativo «ouvi-o». No Baptismo, a voz identificou Jesus. No Tabor, a voz manda ouvir: a revelação da identidade culmina no mandamento de escuta. A teologia do Tabor é, em última análise, uma teologia da obediência: reconhecer a glória de Jesus é comprometer-se a escutá-lo, incluindo quando fala de Cruz e de morte.

II. «Non est hic bonum esse»: a tentação de ficar no tabor

«Senhor, é bom estarmos aqui»! (Mt 17,4), a proposta de Pedro de construir três tendas é a tentação de fixar a experiência espiritual extraordinária: transformar o momento de graça em residência permanente. Pedro quer «ficar» no Tabor porque a experiência é boa demais para terminar, não compreende que a Transfiguração é uma antecipação, não um destino. O Tabor é dado para iluminar o caminho da Cruz, não para substituí-lo.

A tentação de «ficar no Tabor» percorre a história espiritual: a busca das consolações místicas que evita o deserto, o entusiasmo das experiências de oração que dispensa a vida ordinária, o fervor inicial que não atravessa a noite escura. A instrução de Jesus, «levantai-vos e não tenhais medo» (Mt 17,7), é o movimento de descida que se segue sempre à experiência da glória: o Tabor não é o fim da jornada mas o reforço para continuar.

III. Maria e o tabor: a contemplativa do Filho glorioso

Maria não estava no Tabor segundo os Evangelhos, a Transfiguração foi revelada apenas a Pedro, Tiago e João. Mas a contemplação da glória do Filho é uma dimensão central da espiritualidade mariana: ela que «contemplava» o Filho desde Belém, que «conservava e meditava» os mistérios (Lc 2,19.51), chegou a contemplar a glória de um modo que nenhum dos três discípulos do Tabor alcançou, a glória do Ressuscitado, que «resplendece como o sol» na Ressurreição e cuja glória Maria partilha na Assunção.

A Assunção de Maria definida dogmaticamente por Pio XII em 1950, é, numa perspectiva teológica, a «Transfiguração» pessoal de Maria: o corpo que gerou o Filho glorioso partilha da glorificação corporal do Ressuscitado. O que os discípulos viram no Tabor por instantes, o corpo humano transfigurado pela glória divina, Maria vive eternamente na Assunção. A festa da Transfiguração (6 de agosto) e a festa da Assunção (15 de agosto), separadas por apenas dez dias no calendário litúrgico, formam um díptico contemplativo: a glória revelada no Filho (6 agosto) e a glória participada pela Mãe (15 agosto).

A contemplação mariana do Filho glorioso tem também uma dimensão terrena: Maria viu o Filho ressuscitado antes dos apóstolos (segundo a tradição referida por João Paulo II) e contemplou nele a consumação do que havia intuído desde a Anunciação. O «rosto que resplende como o sol» do Tabor é o mesmo rosto que Maria contemplou na manhã da Ressurreição, e é o rosto que, segundo a tradição mística, a mantém em contemplação eterna no Céu. A devoção ao «rosto de Jesus» que a tradição mariana cultivou tem no Tabor e na Ressurreição os seus dois focos: o rosto transfigurado que Pedro, Tiago e João viram e o rosto ressuscitado que Maria contemplou.

IV. «Hic est filius meus dilectus»: da voz do Pai à fé de Maria

«Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ouvi-o» (Mt 17,5), a fórmula trinitária da Transfiguração (Filho revelado, Pai que fala, nuvem luminosa que é o Espírito) tem em Maria a sua recetora privilegiada na história da salvação. Maria foi a primeira a ouvir «Filho do Altíssimo» (Lc 1,32) sobre Jesus, pelo Anjo que transmitia a Palavra do Pai. A voz do Tabor é a confirmação solene daquilo que Maria aceitou em fé desde a Anunciação: que o Filho que gerou é o Filho do Pai.

O imperativo «ouvi-o» que a voz do Pai acrescenta na Transfiguração é o imperativo que Maria viveu antes de qualquer discípulo: ela que «conservava e meditava» (Lc 2,19.51) é a que mais radicalmente «escutou» o Filho, não apenas as palavras da pregação pública mas as palavras silenciosas de trinta anos de Nazaré, os gestos dos milagres, o silêncio de Getsémani. A «escuta» de Maria é o modelo da escuta a que o Tabor convida: não a escuta superficial que quer «ficar no Tabor» mas a escuta que desce com Jesus ao caminho da Cruz e aguarda o terceiro dia.

A festa da Transfiguração, estabelecida universalmente por Calisto III em 1457 em ação de graças pela vitória de Belgrado sobre os turcos (22 julho 1456, anunciada a 6 agosto), é simultaneamente festa da glória de Cristo e convite à contemplação: ver a glória para ter força para a Cruz, contemplar o Tabor para atravessar o Calvário. Maria que atravessou o Calvário sem abandonar a fé é o modelo desta contemplação que sustenta o caminho, ela que não «ficou no Tabor» da Anunciação mas desceu ao vale da Cruz e ao Calvário da entrega, para ressurgir na glória da Assunção.

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