A mariologia de Ratzinger no 3º segredo de Fátima

A mariologia de Ratzinger no 3º segredo de Fátima
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Mariologia de ratzinger: chave de leitura do 3º segredo de Fátima

A mariologia de Ratzinger, hoje Bento XVI, oferece uma das interpretações mais influentes do terceiro segredo de Fátima. Esta mariologia de Ratzinger não reduz as aparições marianas a sensacionalismos, mas situa-as no horizonte da fé eclesial e do mistério da Cruz.

A terceira parte do segredo revelado a 13 de julho de 1917 na cova da Iria-Fátima

Escrevo em acto de obediência a Vós Deus meu, que mo mandais por meio de sua Ex.cia Ap.ma o Senhor Bispo de Leiria e da Vossa e minha Santíssima Mãe. 

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda. Ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo. Mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n’uma luz imensa que é Deus: «algo semelhante a como se vêem as pessoas n’um espelho quando lhe passam por diante» um Bispo vestido de Branco «tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre». Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca. O Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho. Chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal na mão, n’eles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus. 

Irmã Lúcia Tuy 03/01/1944

Em 26 de junho de 2000, a sala de imprensa do Vaticano esteve como raramente repleta de jornalistas vindos de todo o mundo. Compreensível exagero da mídia, porque o terceiro segredo de Fátima estava prestes a ser revelado. Como se sabe, um segredo sempre desperta curiosidade. 

Até o terrorista Ali Agca, numa conversa cara a cara com São João Paulo II em Rebibbia em 1983, perguntou-lhe: Qual é o terceiro segredo de Fátima?, com a intenção de encontrar uma explicação para o seu acto criminoso. Escreveria no livro delirante «Eu, Jesus Cristo»: «Eu entendi que estava no centro de um mistério que começou em 13 de maio de 1917».

Outros, como o alemão Louis Emrich, conseguem publicar em 1963 na Neues Europa um texto inventado do segredo de Fátima que contém notícias alarmantes sobre cataclismos universais (catástrofe de fogo e chamas) e lutas dentro da Igreja, onde «Cardeais serão contra cardeais e bispos serão contra bispos. Satanás se colocará no meio deles».

Neste contexto, a revelação da terceira parte do segredo de Fátima foi confiada por João Paulo II ao Cardeal Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Esta revelação derrota a mania sensacionalista e o alarmismo fácil, despertando decepção em alguns, satisfação em outros, e indiferença entre muitos. 

Os desapontados permanecem aqueles que esperavam anúncios de cataclismos universais e males catastróficos. 

Aqueles que viveram o segredo como um pesadelo do qual finalmente se libertam declaram-se satisfeitos.

Indiferentes são aqueles que dizem que no Evangelho já está tudo o que é necessário para a salvação dos indivíduos e do mundo, incorrendo provavelmente na reprovação bíblica dirigida aos que se mostram insensíveis a visões e profecias.

«E o Senhor advertiu a Israel e a Judá, pelo ministério de todos os profetas e de todos os videntes, dizendo: Convertei-vos de vossos maus caminhos, e guardai os meus mandamentos e os meus estatutos, conforme toda a lei que ordenei a vossos pais e que eu vos enviei pelo ministério de meus servos, os profetas» (2 Reis 17,13).

Como autêntico teólogo, o Cardeal Ratzinger distinguiu os dois níveis de revelação, reivindicando a primazia absoluta da revelação definitiva, pública e necessária que ocorreu de uma vez por todas em Cristo, enquanto as demais comunicações celestes têm uma função subsidiária: «A autoridade das revelações privadas é essencialmente diferente da única revelação pública», mas «a revelação privada é um auxílio a esta fé, e manifesta-se como credível precisamente porque me remete à única revelação pública».

No que chama de «uma tentativa de interpretação do «segredo» de Fátima», o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé indica que este pode constituir «um caminho de salvação», algo que resulta tão surpreendente quanto a «devoção ao Imaculado Coração de Maria».

Consiste praticamente numa opção fundamental que, seguindo os passos de Maria, insere a disponibilidade à vontade de Deus no âmago do eu humano. 

Para entender isto, uma breve indicação pode ser suficiente. «Coração» significa, na linguagem da Bíblia, o centro da existência humana, a confluência da razão, da vontade, do temperamento e da sensibilidade, onde a pessoa encontra a sua unidade e a sua orientação interior. 

O «Coração Imaculado» é, segundo Mt 5,8, um coração que, partindo de Deus, alcançou a perfeita unidade interior e, portanto, «vê a Deus». 

A «devoção» ao Imaculado Coração de Maria aproxima-se desta atitude do coração, na qual o fiat, “seja feita a tua vontade”, torna-se o centro informante de toda a existência.

Continuando com a análise, o cardeal entende que, assim como a palavra-chave da primeira e segunda partes do “segredo” é salvar as almas, a palavra-chave da terceira parte é o triplo grito: Penitência, Penitência, Penitência!

Este grito deve situar-se no actual momento histórico, «caracterizado por grandes perigos, que serão apresentados nas imagens seguintes». Aqui a figura luminosa de Maria aparece como um antídoto eficaz contra as perniciosas tendências necrófilas existentes no mundo.

Observemos agora mais de perto as imagens individuais. O anjo com a espada de fogo à esquerda da Mãe de Deus lembra imagens semelhantes do Apocalipse. Representa a ameaça de julgamento que paira sobre o mundo. A perspectiva de que o mundo possa ser reduzido a cinzas em um mar de chamas não aparece mais como pura fantasia. A capacidade bélica do homem preparou a espada de fogo com suas invenções.

A visão mostra então a força que se opõe ao poder da destruição: o esplendor da Mãe de Deus, e, de certo modo vindo a partir daqui, o apelo à penitência. Existe um embate frontal entre as forças da morte (necrófilas), representadas pela espada de fogo que gostaria de incinerar o cosmos, e as pulsões de vida (biofílicas), condensadas paradigmaticamente no “esplendor da Mãe de Deus”. 

O retorno ao Imaculado Coração de Maria é tão inevitável quanto benéfico: tudo se resolve com um apelo à liberdade humana para que ela se oriente decididamente para a vontade divina «numa direcção positiva», para a salvação e a vida, e não para a destruição e morte.

Desta forma, a importância da liberdade humana é sublinhada. O futuro não é determinado de forma imutável, e a imagem que as crianças viram não é um filme de previsão do futuro, do qual nada poderia ser mudado.

Toda a visão ocorre para trazer a liberdade para a cena e transformá-la numa direcção positiva. O significado da visão não é mostrar um filme sobre o futuro irremediavelmente fixado. Seu significado é exactamente o oposto: mobilizar as forças da mudança para o bem.

A salvação está ancorada numa antropologia autêntica, segundo a qual o fatalismo é substituído pela responsabilidade e pelo compromisso, capazes de mudar o rosto do ser humano e o movimento da história.

Acerca da identidade do Bispo de Branco, o Cardeal afirma:

«Em sua cansativa subida da montanha podemos sem dúvida encontrar vários Papas convocados, que desde Pio X até o actual Papa compartilharam os sofrimentos deste século e se esforçaram para prosseguir entre eles no caminho que leva à cruz. Na visão, o Papa também é morto no caminho dos mártires. Não era suposto o Santo Padre reconhecer nele o seu próprio destino quando lhe foi entregue o texto da terceira parte do Segredo, após o atentado de 13 de maio de 1981»?

Mas se é verdade que o “Terceiro Segredo” diz respeito aos mártires e papas cristãos do século XX, não podemos, entretanto, excluir que o período de tempo que ele abrange não se limite apenas ao século passado. Foi o Papa Bento XVI quem defendeu a possibilidade de que ele abranja também o presente e o futuro, quando afirmou precisamente em Fátima: «aqueles que pensam que a missão profética de Fátima está concluída» estariam iludidos, pois no segredo «para além desta grande visão do sofrimento do Papa, que em primeira instância podemos referir ao Papa João Paulo II, indica realidades do futuro da Igreja que gradualmente se desenvolvem e se mostram» (Fátima, 11 de maio de 2010).

Ratzinger finaliza a interpretação com este parágrafo: «Queria, no fim, tomar uma vez mais outra palavra-chave do segredo que justamente se tornou famosa: «O meu Imaculado Coração triunfará». Que significa isto? Significa que este Coração aberto a Deus, purificado pela contemplação de Deus, é mais forte que as pistolas ou outras armas de qualquer espécie. O fiat de Maria, a palavra do seu Coração, mudou a história do mundo, porque introduziu neste mundo o Salvador: graças ao «Sim» dito por Maria, Deus pôde fazer-Se homem no nosso meio e tal permanece para sempre. Que o maligno tem poder neste mundo, vemo-lo e experimentamo-lo continuamente. Tem poder, porque a nossa liberdade se deixa continuamente desviar de Deus. Mas, desde que Deus passou a ter um coração humano e deste modo orientou a liberdade do homem para o bem, para Deus, a liberdade para o mal deixou de ter a última palavra. O que vale desde então, está expresso nesta frase: «No mundo tereis aflições, mas tende confiança! Eu venci o mundo» (Jo 16, 33). A mensagem de Fátima convida a confiar nesta promessa».

Para aprofundar a mariologia e o terceiro segredo de Fátima, consulte a encíclica Redemptoris Mater de João Paulo II, sobre Maria e o seu papel escatológico na história da Igreja.

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A mariologia de Ratzinger compreende Fátima como sinal profético da paixão da Igreja no século XX. Aprofundar a mariologia de Ratzinger é redescobrir Maria como discípula que sustenta a Igreja na prova. Ler mais sobre o comentário oficial no documento da Congregação para a Doutrina da Fé.

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